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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Artigo de Opinião


A linguagem burocrática e o poder

THAÍS NICOLETI DE CAMARGO
Colunista da Folha Online

Recentemente, o articulista Roberto Pompeu de Toledo, da revista "Veja", fez um interessante ensaio sobre as relações entre o poder, a burocracia e o emprego da língua portuguesa. Baseado num texto que respondia a uma solicitação de aposentadoria ao INSS, o ensaísta chega à conclusão de que a linguagem da burocracia estatal simboliza "o massacre cotidiano a que o Estado submete os cidadãos, os mais humildes em primeiro lugar".

Ora, o conteúdo da carta em questão era o seguinte: "Para dar andamento ao processo do Benefício em referência, solicito-vos comparecer no endereço: Av. Santa Marina 1217, no horário de 07:00 às 15:00, para que as seguintes exigências sejam cumpridas:

- retirar a carteira profissional que se encontra em seu processo para que empregador atualiza as alterações de salarios em vista da última anotação foi 1990 e o salario de contribuição esta divergente da ultima alteração

- recolher o 13 referente ao período de 1995 a 2004 que não foram recolhidos e 1 de ferias conforme consta os meses a serem recolhidos na carteira profissional

Comunico-vos que vosso pedido de Benefício será indeferido por desinteresse, se não comparecerdes dentro de 10 dias a contar desta data.

Deveis apresentar esta carta no ato do comparecimento" (sic).

Bem, o que mais impressiona o colunista é a parte final da carta, em que soa ameaçador o trecho "se não comparecerdes dentro de 10 dias...". Segundo ele, o uso da segunda pessoa do plural, o pronome "vós", de todo inusual no português moderno, serve mesmo para assustar o contribuinte, para ameaçá-lo.

De fato, a linguagem formal serve para assinalar distanciamento. Chamar alguém de "senhor" ou "senhora", por exemplo, nada tem a ver com a idade da pessoa em questão, muito embora sintamos isso freqüentemente. O tratamento formal indica ausência de intimidade, o que é útil em muitas situações da vida social. As relações de respeito mútuo se traduzem por palavras de cortesia e de formalidade. É claro que, se for usado em situações que não o requeiram, o registro formal pode soar como manifestação de frieza e até de antipatia.

No caso da linguagem burocrática, o tom formal é, de fato, o mais desejável. Os documentos devem ser escritos em linguagem impessoal, de modo que se ressaltem apenas as informações. O que salta aos olhos no texto do documento em questão é o desejo de usar uma linguagem extremamente formal e, ao mesmo tempo, a grande dificuldade (ou a impossibilidade) de fazê-lo. O texto contém erros grosseiros de grafia e de concordância, mas termina com o verbo corretamente conjugado no futuro do subjuntivo da segunda pessoa do plural. Essa mistura de registros parece sintoma de uma certa percepção da língua que me parece digna de nota.

Muitos dos usuários da língua desconhecem até mesmo as normas de grafia. Não me refiro aqui a construções sintáticas, pontuação ou regência, mas a uso de acento na sílaba tônica das paroxítonas terminadas em ditongo, por exemplo. Veja-se a palavra "salário", repetidas vezes empregada no texto acima sem o referido sinal diacrítico, bem como a palavra "férias", igualmente desprovida de seu acento gráfico.

Que dizer de uma construção sintática como "conforme consta os meses a serem recolhidos na carteira profissional"? Ora, ao empregar "conforme consta na carteira profissional", "os meses a serem recolhidos" já estão subentendidos (é isso o que consta na carteira profissional, daí o uso da conjunção "conforme", que quer dizer "em conformidade com o que foi dito antes"). Por outra, também é impreciso dizer "os meses a serem recolhidos", uma vez que o que se recolhe é um valor, não um mês.

Vê-se que o texto foi escrito por alguém que não tem muita intimidade com a linguagem formal, dado que são reproduzidas estruturas "quebradas", típicas da fala descomprometida, o que dá ao texto um aspecto claudicante. Esse mesmo redator, entretanto, esmera-se em empregar a segunda do plural corretamente.

A percepção da língua que subjaz a uma escrita como essa é a de que a língua é algo externo ao falante. Existem termos que se devem usar para exprimir respeito ou formalidade. É o que popularmente se chama de "falar difícil". Sem entender exatamente o que dizem as palavras, as pessoas percebem esse tipo de discurso como algo que emana do poder. A impenetrabilidade do discurso exerce uma função pragmática: a de demarcar espaços de poder.

O famoso "economês", alcunha do discurso hermético dos economistas, é outro exemplo desse mesmo tipo de situação. É uma linguagem que comunica não uma informação objetiva, mas um sentido subjetivo, subliminar.

Entretanto, ao desobedecer à norma culta do idioma, a linguagem burocrática da carta do INSS parece falhar nessa "missão" (o que não ocorre no "economês", por exemplo). Resta um discurso a um só tempo pretensioso e ingênuo. Pretensioso na intenção, mas ingênuo na elaboração. Em suma, um discurso que dificilmente vai "humilhar" alguém (como imagina Pompeu de Toledo) até porque lhe faltam os atributos mínimos para tanto. Registre-se, porém, que talvez a intenção de quem compôs o texto fosse mesmo a de impor o medo.

Na mesma chave de entendimento está o uso do chamado "gerundismo", cujo sentido se produz na estrutura, não nas palavras em si. Quando ouvimos uma frase do tipo: "Vou estar transferindo a sua ligação para o setor de relacionamento com o cliente", compreendemos esse gerúndio não como ação contínua (a ação de transferir não tem esse aspecto), mas como uma espécie de fórmula de atendimento, cujo sentido terrível é o de que estamos sendo enredados por um sistema em que o poder não tem face (mais ou menos como a burocracia). Quem ainda não leu "O Processo", de Franz Kafka, que o faça o quanto antes!

Grupo 4 - Fabrícia, Lilian, Marilene, Regiane, Renata

Um comentário:

  1. Podemos perceber o quão importante é a compreensão da nossa língua. Explicita a dificuldade em nos comunicar quando não sabemos usá-la corretamente. Só me instiga a aprender e melhorar cada vez mais o meu Português ler uma matéria como esta.
    Parabéns!

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